sábado, 27 de dezembro de 2014

O que penso sobre o decreto da queda




De acordo com a bíblia, Deus é aquele que "faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade"(Ef 1:11). Isto é, nada do que acontece, acontece por sorte ou acaso. Muito pelo contrário, acontece porque Deus assim o quis e decretou(Is46:10).Deus governa até mesmo as nossas decisões(Pv 16:1,21:1). Partindo então destes fatos, trataremos em específico de um assunto que, sem sombra de dúvidas, tem inquietado muitas pessoas. Este assunto é o que se conhece por "a queda de Adão", ou "a queda do homem". As inquietações e dúvidas são: Se tudo acontece porque Deus quer, então a queda de Adão aconteceu porque Deus quis e a causou? Como o homem pôde se corromper sendo que Deus o tinha formado reto e bom? Era Adão totalmente perfeito? Se era, como se corrompeu? Mas se não era totalmente perfeito, por que a bíblia dá testemunho de que tudo o que Deus fez é bom(Gn 1:31), e que o homem era reto em seus caminhos(Ec 7:29)? Enfim, são muitas as dúvidas. Tentarei demostrar algumas posições no que diz respeito ao tema em questão, analisando-as, e por fim, demostrarei como calvinista, a minha visão sobre a queda.


                         Algumas posições divergentes quanto a queda

A primeira posição a ser apresentada é a arminiana. Para os irmãos arminianos, Deus não decretou a queda de Adão no sentido de que Ela deveria ser inevitável. Muito pelo contrário, a queda poderia ter sido evitada, pois Deus dotou Adão de livre-arbítrio. Para esses arminianos, a queda se tornou algo certo  baseado na presciência de Deus, que sabe de todas as coisas e previu esta queda. Inclusive esta seria a posição mais aceita no meio cristão atual. 

Há, entretanto, a interpretação de certos calvinistas que dizem que Deus não somente previu a queda, mas a decretou e causou ativamente. Isto é, Deus conduziu Adão de forma ativa ao pecado. E acreditam desta forma visto que para eles não faz sentido crer que Adão, sendo totalmente reto e bom(Ec7:29), poderia ter pecado à parte da causação divina. Estes calvinistas se baseiam no texto de Mateus 7:17 que diz "Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Logo, Adão não poderia ter pecado se o próprio Deus, que controla todas as coisas, não causasse este pecado. Mas, como  Adão pecou, foi então o próprio Deus que causou isto. Nesta visão, a queda também era algo logicamente certo de acontecer. Como também, para esses calvinistas, não faria sentido acreditar em decreto passivo  visto que não há nada que Deus não cause diretamente. Ou seja, para eles, crer em decreto passivo é crer em dualismo. Isto é, que outras forças governam à parte de Deus.

Já outra boa parte dos calvinistas dizem que a queda foi decretada por Deus, e que não existia a possibilidade dela não ocorrer, visto que fazia parte do plano eterno de Deus que objetivava uma manifestação mais plena de seus atributos tais como a justiça, ira,  graça, amor e misericórdia. Entretanto, este decreto é passivo, isto é, Deus decretou permitir a queda. Este decreto passivo não tem nada a ver com a visão arminiana acima, pois como já dito, para o arminiano a queda poderia não ter acontecido. Porém, na visão calvinista de decreto passivo, a queda seria inevitável, pois Deus já havia a decretado antes da fundação do mundo pelas razões já ditas acima.  Nesta visão, Deus antes da fundação do mundo, quis por sua vontade permitir que Adão caísse. E que antes da queda, Adão tinha livre-arbítrio, isto é, a capacidade de continuar em seu estado de retidão e obediência. Para esses calvinistas, há um mistério em como Adão sendo reto e bom, pôde ainda assim pecar. E usam o mesmo argumento dos primeiros calvinistas, ou seja, que uma árvore boa, dará bons frutos, e não frutos ruins.  Entretanto, estes calvinistas não aceitam a interpretação dos primeiros calvinistas que dizem que Deus conduziu Adão ativamente ao pecado, é por isso que creem em decreto permissivo. Ou seja, Deus simplesmente não segurou Adão dando a ele a graça sustentadora; e por não ter dado esta graça, só restou a queda,e foi isto que Deus permitiu.

  Minha interpretação particular como resposta às três visões acima.

Particularmente a minha visão(que na realidade não é somente minha, mas é defendida por vários calvinistas) contém semelhanças com a interpretação dos calvinistas que adotam a visão de decreto passivo da queda, porém com algumas diferenças. Por exemplo, a minha visão é que Adão nunca foi livre de Deus, logo não existia a possibilidade de Adão não pecar. É ilógico crer que Adão tinha livre-arbítrio no sentido de que poderia não ter pecado, e ao mesmo tempo crer que a queda deveria ocorrer. Ora, se a queda deveria ocorrer, Adão teria de pecar. No máximo, a única coisa que podemos dizer é que Adão,antes da queda, não era preso ao pecado; o que não quer dizer que ele era livre dos decretos de Deus. Entretanto não creio que a queda foi decretada ativamente no sentido de que Deus fez Adão pecar. Como um calvinista infralapsariano, eu creio que a queda foi passiva no sentido de que Deus restringiu o poder sustentador que faria com que Adão não pecasse. Sem este poder preservador, Adão caiu por sua própria vontade. Isto se chama decreto permissivo no sentido de que Deus retira a graça, e permite Adão cair. É claro que até mesmo nessa visão Deus tem sua parcela de participação na queda; entretanto é uma participação mais passiva do que propriamente ativa. Deus não faz Adão pecar, mas contribui para que ele peque. 

Os calvinistas que creem em um decreto ativo, onde Deus causa diretamente o pecado de Adão, contradiz a nossa visão dizendo que "Adão era uma árvore boa, e árvore boa só dar bons fruto, logo não era preciso Deus restringir a graça sustentadora, pois independente dela, Adão por ser totalmente bom não pecaria. Mas só caiu, porque Deus causou ativamente esta queda". Ora, é bom lembrar que Adão mesmo bom e reto, não era imutável.  De fato uma árvore boa só pode dar bons frutos; entretanto não nos esqueçamos que a árvore boa só é boa porque Deus, através de sua graça sustentadora, a conserva como boa, e por ser boa, dar bons frutos. Logo, Adão mesmo sendo considerado reto, só poderia ter sido conservado em retidão se Deus o tivesse sustentado nesse estado. Entretanto, Deus retirou dele a sua graça, e ele por si mesmo caiu. Ademais, não seria necessário Deus ter causado ativamente o pecado de Adão, visto que Adão, mesmo sendo reto e perfeito, ainda assim era dependente de Deus para não pecar. Agora se crermos que Adão, por ser bom e totalmente reto por si mesmo jamais pecaria, isto em outras palavras significa dizer que Adão era independente de Deus para permanecer perfeito. Isto é um grave desvio, visto que a bíblia é clara em dizer que "sem Deus, NADA podemos fazer"(Jo 15:5).

Já com relação a dualismo, tal acusação não faz muito sentido. Não há dualismo no decreto passivo da queda visto que Deus, neste tipo de decreto, tem o total controle das coisas. Ademais,não há uma luta entre o bem e o mal. Não existe, no decreto passivo, duas forças que disputam pelo domínio absoluto. Não, o que existe é um Deus reinando e sendo absoluto até mesmo sobre o mal. O que há é um Deus que, através de sua providência, governa todas as coisas.

Mas a pergunta é: Se Deus não causou o pecado de Adão, de onde surgiu, sendo ele(Adão) perfeito e reto, o desejo pecaminoso em seu coração? 

Ora, da própria restrição da graça. Quando Deus restringiu a graça , Adão que outrora era uma árvore boa, deixa de sê-la, e quando deixa de sê-la, peca. A perfeição estava atrelada à graça sustentadora; não existe perfeição sem Deus. O homem é totalmente dependente de Deus para continuar sendo até mesmo perfeito. Será assim até mesmo no céu, mesmo perfeitos dependeremos da sustentação de Deus(Ap 7: 17, 21:23,24).

Também não podemos esquecer de conceder  resposta a visão arminiana sobre a queda. Como já demostrado acima, os arminianos afirmam que a queda poderia não ter acontecido, pois a Adão foi entregue o livre-arbítrio, e sendo assim, poderia ter pecado ou não. Ora, tal visão por mais agradável que seja, não afasta Deus da realidade da queda. Na verdade este pensamento também tem seus problemas. Ora, Deus por ser onisciente sabia que Adão cairia se desse a ele o livre-arbítrio, sabendo Deus disso, por que foi em frente e entregou o livre-arbítrio que seria a causa da desgraça deste homem? Observe que até mesmo no arminianismo Deus tem a sua parcela de participação na queda. Participação no sentido de conceder ao homem aquilo que o levaria a queda. Além do mais, a visão arminiana da queda, por ensinar que existia a possibilidade de Adão ter escolhido o bem, faz do homem o soberano sobre suas próprias decisões. Na visão arminiana, o homem, através de um suposto livre-arbítrio, é quem dirige os seus próprios caminhos e as suas próprias decisões. Porém tal ensino é contrário a textos  como estes:

"Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho; nem do homem que caminha o dirigir os seus passos". (Jeremias 10:23)

"Do homem são as preparações do coração, mas do SENHOR a resposta da língua". (Provérbios 16:1)
                                                     

Observação : É sabido que Deus havia dado uma ordem para que Adão não comesse do fruto, nenhum calvinista nega isto. Entretanto, tal ordem é referente apenas ao aspecto prescritivo da vontade de Deus. Isto é, aquilo que Deus estabelece como ordenança. Na bíblia nem sempre a vontade de Deus em ordenar é referente a sua vontade em decretar que aconteça. Para um melhor entendimento desta questão, recomendamos o texto :" Respostas à algumas objeções contrárias à doutrina da graça irresistível".
                                                   

                                                    Conclusão

Diante de tudo o que já foi escrito, podemos afirmar que a escritura, de fato, tem seus mistérios insondáveis. E por este motivo, é preferível não querermos limitar Deus à nossa lógica caída e manchada pelo pecado. Podemos dizer então que: a queda fora decretada por Deus para uma maior manifestação de sua glória e atributos, o que não quer dizer que Deus dependa do pecado para ser magnificado. Deus é Deus antes de qualquer coisa, e já era glorificado como Deus muito antes da queda(Sl 90:2). Como também que a queda de Adão ocorreu de forma passiva, o que não nega o fato de que ela inevitavelmente iria ocorrer. Que Deus tem participação no sentido de que restringiu a graça em Adão; porém Adão pecou por si mesmo. E que tudo isto estava dentro do soberano e  bom propósito de Deus.

Soli Deo Gloria

Álvaro Rodrigues

3 comentários:

  1. Olá, gostaria de registrar que gostei de mais desse site.
    Já virei um seguidor. Aproveito para convidá-lo a conhecer também
    o nosso blog. Ficaremos felizes por vossa visita e mais ainda se
    seguir-nos.

    Mensagem edificante para alma.
    Josiel Dias
    http://josiel-dias.blogspot.com
    Rio de Janeiro

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  2. Gn 16: "DA ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL COMERÁS"
    - Esta é a conclusão da tese do blogueiro.

    Então nós temos a Palavra de Deus e "o decreto de Deus".
    Na primeira Ele ordena não-fazer. No segundo Ele decreta que seja feito.

    Adão desobedeceu à Palavra de Deus mas cumpriu o decreto de Deus.

    Então, a Palavra de Deus é uma e o decreto de Deus é outro.

    A Palavra de Deus é contra os decretos de Deus e os decretos de Deus são contra a Palavra de Deus.

    A Palavra de Deus é desafiar o decreto de Deus.
    E o decreto de Deus é quebrar a Sua própria Palavra.

    Sei.

    E qual dos dois você quer obedecer: a Palavra ou o decreto de Deus?

    Blogueiro, não me interessa onde você e seus mestres andam com a cabeça. Mas, deixe a Bíblia fora disso. É melhor para vocês.

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    1. Caro, ERCF BR. Eu poderia muito bem não ter publicado seu comentário ridículo, visto ser ele ofensivo em determinados momentos. Mas resolvi assim mesmo publicar, para respondê-lo. Vamos lá...


      Você diz : "Gn 16: "DA ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL COMERÁS"
      - Esta é a conclusão da tese do blogueiro.

      Não, essa conclusão é de sua ignorância. Primeiramente vá estudar questões relacionadas aos aspectos de preceitos e decretos em Deus.

      Exemplos: Na bíblia não vemos em nenhum lugar Deus ordenando, através de mandamento(aspecto prescritivo de sua vontade) , os homens assassinarem Jesus. Muito pelo contrário, o que ele diz é: "Não matarás"(aspecto prescritivo). Porém, a mesma bíblia diz que fora o próprio Deus quem decretou a morte de Cristo, quando diz: “para fazerem tudo o que a Sua mão e conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer” (At 4:28). No contexto desse texto, o apóstolo diz que Deus juntou todos os personagens, isto é, Pilatos, Judeus, entre outros, para comprirem o decreto relacionado à morte de Cristo. Leia você mesmo e confira.

      Aqui em meu blog tem um texto intitulado " Respostas à algumas objeções contrárias à doutrina da graça irresistível". Neste artigo, eu respondo e demostro biblicamente esta questão com outros exemplos.

      Então, caro ERCF BR, vá estudar. Teologia não é algo tão simples como parece ser. Eu não inventei nenhuma doutrina nova quando escrevi essas coisas. Tais pensamentos já podem ser encontrados nos escritos de vários homens de Deus, inclusive dos reformadores. Então vá estudar!

      Você diz: "E qual dos dois você quer obedecer: a Palavra ou o decreto de Deus?"

      A nossa obrigação moral é obedecer aos mandamentos de Deus. Quanto aos seus decretos, eles, em determinados contextos, nos são misteriosos. Não tenho dificuldades nenhuma em reconhecer que Deus é soberano sobre todas as coisas e decreta até mesmo a sua rebeldia, caro ERFC BR. Eu não questiono as ações de Deus, eu eu apenas imito o apóstolo Paulo, quando em Romanos 9, diz: "Quem és tu para discutires com Deus?"

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